25/05/17

IMAGEM PEREGRINA - MARAVILHAS NA DIOCESE DA GUARDA - 1950 (I)

Sé da Guarda
A Imagem de Nossa Senhora de Fátima em 1950 andou peregrina pelas dioceses de Portugal, visitando as paróquias respectivas. Por todo o lado houve milagres, que junto a esta imagem começaram pelo menos desde 1947 (antes da sua primeira viagem peregrina ao estrangeiro), e não os deixou de fazer na Diocese da Guarda, que é o que vos venho contar.
 
Sirvo-me do livro que a própria Diocese da Guarda publicou em 1950, e transcrevo:
 
"(...) O universalismo de Fátima recebera a sua perfeita e definitiva consagração.
O Velho Duarte Pacheco tinha de inspiração divina a nossa epopeia marítima, a expansão da civilização cristã pelo mundo, que o nosso génio, filho da nossa fé, criou e engendrou. Não pode ter outra explicação o universalismo de Fátima.
Para que este novo universalismo?
Apenas, e está nisso a sua grandeza e a nossa responsabilidade, para completar a obra do primeiro."
O magno problema da hora presente não é só a conversão da Rússia, é também o da conversão do Mundo. Apostasia da Rússia começada com Fócio, no século VIII, consumou-se no séc. XX por influência do Ocidente. O comunismo é filho de Marx, Marx é filho de Hegel e ambos são filhos de Lutero. O comunismo é a última etapa, a derradeira consequência religiosa, política, económica e social do protestantismo. Da Rússia, disse Ventura Raulica que só se converteria com uma grande revolução. Essa revolução não foi a que Lenine desencadeou com os seus sequazes, naquele trágico mês de Novembro de 1917. O comunismo mesmo, não é uma revolução no sentido original do termo; é antes uma deformação, uma degradação colossal, que pretende envolver todo o mundo. A "revolução", regresso ao princípio, só pode vir do espírito, importa a recuperação do que se perdeu, da personalidade cristã da Europa [independentemente do restante] (...) da personalidade histórica do Ocidente." [o comunismo deve ser visto em todo o seu desdobramento e desenvolvimento, e não apenas o partidarismo e doutrinas nas suas formas clássicas].
 
Isto era do prólogo. Vamos ver o que aconteceu em Vila Nova de Tazem, que em 1950 tinha um total de 2942 habitantes. Nas aldeias que vão aparecendo os católicos são 100% da população.
 
"Rio Torto [922 habitantes] esperava a pé firme, à entrada do ramal que se lhe abre da estrada nacional. Toda a povoação está a postos. Música e foguetes e ornamentações. Um grupo de ciclistas, com arcos erguidos nos aparelhos que montam, vão ao encontro da Senhora, que ao chegar recebe uma ovação estrondosa.
Estalam os foguetes, toca a música [banda filarmónica], soam os vivas, ribombam as aclamações. Depois faz-se silêncio. E logo se abre a recitação do Coro Falado, ali mesmo na estrada, espécie de diálogo entre o pároco e a freguesia, diálogo que exprime a consagração a Nossa Senhora. O Sr. D. Domingos préga, renovam-se as manifestações e o cortejo prossegue a sua marcha com o cântico do adeus, e, como em toda a parte, com agitação dos lenços, em gesto de saudosa despedida.
Vem agora Lagarinhos [963 habitantes], toda enfeitada com festões de verdura e flores, a estrada atapetada de ervas odorantes, arcos e bandeiras. Em frente da igreja, junto da Casa do Anjo da Guarda e da magnífica casa destinada a residência paroquial pela ilustre família da Ponte Pedrinha, ergue-se, sobre quarto postes, ornados de festões, um interessante docel, sorte de cúpula imensa tecida de flores. É debaixo dele que fica Nossa Senhora. Manifestações ruidosas, cânticos, foguetes, flores em catapultas, e por fim a consagração a Nossas Senhora.
O Sr. D. Domingos agradece à freguesia o cuidado e interesse que tem pelos Seminários, e presta uma homenagem de merecida justiça à ilustre família da Ponte Pedrinha, pela caridade que tem com os Seminários e a oferta da linda casa, que expressamente fez construir para residência do pároco, mostrando assim o grande interesse que lhe merecem as almas e a sua salvação. Recebe as esmolas destinadas à aquisição da imagem que vai ser colocada na Sé da Guarda, e no meio de novas e estrondosas aclamações, a imagem segue para Pinhanços [905 habitantes], que está profusamente ornamentada, e onde as manifestações foram por igual ardentes e fervorosas.
Após um curto descanso do Sr. Bispo, em casa do nosso presado amigo Sr. Álvaro Corte-Real, fez-se a consagração da freguesia.
Depois, foi Santa Comba, Tourais Paranhos, onde multidões enormes saudaram Nossa Senhora, com manifestações ruidosas. Esta já noite quando a imagem, depois de receber as homenagens da gente de Girabolhos, que veio ao seu encontro, chegou a Tazem.
Ali um formigueiro humano a esperava. Viera gente de todas as freguesias do arciprestado. Cada uma delas tem o seu lugar marcado na estrada, que vai a Vila Nova.
Todas mandaram grossas deputações, todas numa ordem perfeita.
No lugar de Tazem, a 2 Km de Vila Nova, estrondeiam as primeiras manifestações, que não cessaram mais em todo o longo trajecto; antes cresceram à medida que da vila se aproximava o cortejo. A meio caminho, a imagem desce da berlinda e é conduzida no andor, por pessoas gradas da vila. Logo duas pombas descem a beijar-lhe os pés e a aninhar-se para não mais saírem [um dos muitos "milagres das pombas"]. Os cânticos, as aclamações sucedem-se, os morteiros rasgam o espaço.
Vila Nova, toda vestida de festa, nas ruas e nas almas. Nas ruas, as decorações são abundantes e variadas; nas almas, a pregação preparatória levara à confissão milhares de pessoas.
A noite caíra há muito. As iluminações nas ruas, nos arcos, nas janelas, são feéricas.
A procissão avança e ao chegar à ampla avenida que leva à Igreja, do alto da torre elegante que a completa, solta-se um rico bouquet de foguetes silenciosos, que enchem o espaço de luzes variadas, em distribuição artística.
Ali as manifestações tomaram ainda mais alma. Estão ali muitos milhares de pessoas. Vila Nova e arredores. A Imagem colocada no vestíbulo da igreja, e vão começar os actos de adoração. O Santíssimo é exposto em frente do templo, cujo corpo será a avenida fronteiriça, único templo capaz de conter a multidão enorme, que se aglomera diante de Nossa Senhora a rezar e a cantar. E foi na verdade, ali, que se fizeram as primeiras horas de adoração.
Mas o tempo arrefecera, a multidão minguou, e as horas de adoração por freguesias, a partir das duas da madrugada, fizeram-se dentro da igreja, sempre apinhada, a despeito das suas vastas dimensões.
Madrugada feita, começaram as missas, nas quais comungaram 3000 pessoas. Seguiu-se a missa das crianças, em que tomaram parte grupos de todas as freguesias do arciprestado, missa da A.C. e zeladoras do S. C., pelo Sr. Bispo, e mais tarde a missa campal, que revestiu singular grandeza e solenidade.
A vasta avenida recebeu copiosa multidão, que ouviu missa dialogada e escutou a palavra ardente e paternal do Sr. D. Domingos que tem sido incansável e por toda a parte deixa a semente fecunda da sua palavra oportuna e evangélica.
A cena da despedida, teve em Vila Nova um acento de notável grandeza e emoção; toda a numerosa multidão, que se juntara em Vila Nova, para saudar Nossa Senhora, se congregou à hora da partida para lhe dar o último adeus.
Levada em triunfo até à frente do hospital, ali entrou na berlinda e seguiu para Cativelos. E viu-se como em poucas partes, grande numero de pessoas, correr atrás dela, em corridas vertiginosas, alheias ao perigo que corriam com os numerosos carros que a seguiam.
E nem todos desistiram, que quando se procedia à consagração em Cativelos, grupos densos de pessoas chegavam para um último adeus. Em Cativelos, a mesma decoração, as mesmas flores, os mesmos vivas. E terminadas as manifestações, toda a freguesia seguiu rua abaixo, até à estrada, em que a berlinda tomou marcha nova e desapareceu na curva da estrada, ante os olhos lacrimosos da multidão a cantar o adeus e a agitar os lenços.
Nespereira e Arcozelo juntaram-se na boca dos respectivos ramais da estrada, em local decorado, com plantas e colchas. Mais adiante, uma casa de cantoneiro, lindamente adornada e com a estrada em largo espaço, decorada de plantas, e os moradores, à porta, de mãos postas em oração. Um vistoso arco de flores, à entrada da quinta do falecido Dr. Mendes Oliveira e, finalmente Vila Cortez, a que se juntou Vila Ruiva. Grandes aclamações, filas de rosas, vasos de flores sobre a ponte, arcos, bandeiras, flores, muitas flores.
Veio depois Nabais e Nabainhos, com grandes manifestações e adorno da rua."

[em continuação veremos como em Gouveia houve uma procissão de duas horas sobe chuva e frio]

(a continuar)

1 comentário:

Cláudia Arruda disse...

Salve Maria.

Maravilha!

"«Salve, nobre Padroeira / Do Povo, teu protegido, / Entre todos escolhido / Para povo do Senhor. / Ó glória da nossa terra / Que tens salvado mil vezes, / Enquanto houver Portugueses, / Tu serás o seu amor.»"



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